Carta D. Zila – 5 anos do desaparecimento da Cláudia



Há cinco anos que a tua janela está fechada. As roupas, que penduravas na veneziana, para pegar sol, não estão mais ali, mas o meu coração se alegra, porque sei que estás cheia de paz e luz.

Não estás mais participando das dificuldades deste planeta.

Filha, vem me dizer, no meu sono, como está a tua caminhada. Aqui estamos de quarentena, já faz quase um mês e ainda vai mais tempo.

Daí onde tu estás me cuida filha! A saudade cada vez aumenta mais.

Rogamos a Deus que te abençoe e te guarde e que Maria passe na tua frente e vá deixando, no teu caminho, as estrelas do seu manto.

Paz e luz filha, te amamos!

Mãe



P.S.: Filha, a fotografia que agora eu tenho, na minha cabeceira, és tu, com 3 anos, varrendo a cozinha.
É assim que eu te imagino agora… um anjo! (com um sorriso a coisa mais linda)

Inacreditáveis 5 anos

Esse é um texto de saudades e desabafos…

Senti tanta a tua falta, quando mudei para Brasília. Trocávamos cartas, era 1990, só tínhamos os correios e o telefone.

Éramos irmãs inseparáveis, final de semana, aniversário das crianças (as minhas), torcida nas carreiras, sair para compras, tomar café, lagartear com chimarrão, conversar a noite inteira… Andar de bicicleta pelo Laranjal.

A vida foi acontecendo para nós duas, mas os laços da amizade se fortaleceram na distância.

Laços que permitiam inclusive a respeitosa discordância. Continuávamos amigas e confidentes.

Lembro do orgulho recíproco por cada conquista nossa. Na dúvida, na hora das decisões, quantas vezes sentamos, para discutir o melhor caminho a seguir.

Estive contigo quando fostes buscar o primeiro carro comprado, coincidiu com uma ida a Pelotas. Amavas dirigir!

Ainda lembro do telefonema do meu filho, de madrugada, avisando, mãe a tia Cláudia está desaparecida. Nunca mais teríamos o teu sorriso.

No primeiro ano sobrevivi no automático. Minhas forças emocionais eram apenas para te defender.

Sim, eras atacada constantemente, na dignidade e honra.

Conheci o pior das pessoas nesse momento de dor. Ainda tento entender o porquê, em meio a tanto sofrimento, enfrentar tantas mentiras. Fiz uma pasta no computador de prints desonestos e enganosos.

As pessoas ignoram que nós, que sempre te amamos, lemos as atrocidades que escrevem sobre ti ou quando friamente descrevem o que provavelmente aconteceu contigo.

Sobrevivi, sobrevivemos a tua falta, nunca aceitamos, ficou o vazio, o interno e o externo.

Enxergamos e acompanhamos, há algum tempo, o mundo que te rodeava em decadência, resta a vontade de chorar…

9 de abril – The Forgiven

Dia 9 muito perto, muito triste…

pós 50

Cláudia, abril sempre será, para mim, um mês difícil, mês da morte do meu pai, dia 13 e, agora, o dia 9, que ficou marcado para sempre, porque te tiraram de nós. Para mim é um mês triste…

Assisti The Forgiven, um filme, parte de uma das missões mais difíceis dadas por Nelson Mandela ao arcebispo Desmon Tutu, comandar a comissão de reconciliação entre torturados e torturadores na África do Sul, a TRC, para restaurar a justiça, depois do Apartheid.

Chorei horrores, porque lidar com a nossa incapacidade, inércia e impotência é muito difícil, dar o perdão cristão mais ainda.

Este filme veio numa hora fundamental, ele me lembrou de tudo que o ser humano é capaz de fazer tanto de bem quanto de mal.

O que mais doeu em mim e me fez desabar ao assistir esse filme foi uma mãe pedindo ao arcebispo que, por favor, encontrasse…

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5 anos

Hoje faz exatamente 5 anos que nos vimos pela última vez, jantamos uma pizza, antes que eu retornasse a Brasília.

Usavas essa roupa, foto tirada no laboratório, antes de sair para a pizzaria. Não sei se a foto é do Tiago ou da Francine. Estavas muito feliz, o novo laboratório ficara pronto.

Ainda sinto a tua mão no meu cabelo brincando: “comadre acho que nunca te vi de cabelo tão comprido”. Realmente, sempre usei mais curto.

Ainda faço coisas estranhas, como procurar mensagens tuas, nas lembranças do Facebook. Qualquer palavra me conforta.

Pequenos acontecimentos me levam para ti, uma marca de carro, uma foto da tua marca favorita de bota…

E, agora, nessa pandemia, penso em tudo que estarias fazendo na biotecnologia.

Sabe, amar também dói, quando a impotência toma conta, quando tudo o que foi feito não foi suficiente.

Sempre sinto a tua falta, aí rezo uma Ave Maria, para te enviar luz, para que continues sempre sorrindo, como nesse momento do click.

Em tempos de coronavírus

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Este texto é uma breve homenagem a tua excelência como cientista.

Se tem alguma coisa que eu aprendi contigo foi lidar com germes, vírus e bactérias.

Me dizias: se tu tiveres uma única opção de lavar a mão, ao usar o banheiro, faz ao entrar, para não te contaminares intimamente, ao sair procura algum lugar em que possas lavar a mão. Porque somos mulheres, é inevitável não se contaminar ao usar papel higiênico.

Muitas vezes, com a minha mãe hospitalizada, ficava na tua casa. Ao entrar, sempre pela porta dos fundos, já tirava as roupas usadas no hospital e colocava na máquina de lavar. Ía ao banheiro, do lado, um banho, faria a “desinfecção” final, antes de adentrar à casa.

As compras empacotadas do supermercado, em embalagens plásticas, eram colocadas direto para pia, para serem lavadas, porque muitas pessoas já as haviam tocado, deixando suas marcas e germes. Assim se preservava a geladeira e a própria comida, que seria ingerida no futuro, de contaminação.

Acho que serias fundamental em época de coronavírus, terias tanto a nos ensinar…

Falo ao rever o teu breve currículo, que publiquei no blog, a tua liderança no grupo de pesquisa em Imunodiagnóstico, a busca do desenvolvimento tecnológico em geração de produtos e processos inovadores aplicados ao diagnóstico de enfermidades humanas e dos animais.

A vasta experiência na área de Microbiologia e Imunologia Aplicada, principalmente nos temas: Produção de Anticorpos Monoclonais e Desenvolvimento de Testes de Diagnóstico. Serias do Balacobaco… Estarias a frente de pesquisas, pronta para atuar no enfrentamento dessa crise.

E eu teria a quem recorrer, diria: comadre, ficarei reclusa 60 dias em casa, sabes da imunodeficiência. O que eu faço agora?!

Nunca terei essa resposta, me resta pensar em ti e naquilo que me ensinastes, enquanto estivemos juntas no mundo.

Avenida Fernando Osório

Mais uma vez em Pelotas, eu ainda tenho medo de encarar a casa ao lado, porque a dor é instantânea.

Existe uma grande diferença no meu olhar ali agora. Antes primavera, agora constante inverno, como as pinturas de Monet, retratando as diversas estações no Jardim de Giverny, mas não há beleza no inverno que se instalou na Fernando Osório.

Dona Zilá abriu a porta para mim, minha filha e meus netos. Logo de cara pude perceber a fragilidade em que se encontra.

Agora usa um andador para se deslocar pela casa e tem sérias limitações de movimentos. A coluna sofre para sustentar seu frágil corpo.

Ao entrar olho para parede onde está o quadro de tulipas pintado pela Cláudia. Pela sala diversas fotografias dela, de muitas épocas.

A conversa é triste, restaram muitos dissabores, além do amargo desaparecimento da minha amiga. 

Quanta diferença! Há 30 anos, quando chegávamos com o meu Fiat 147, estacionávamos em frente à casa e as crianças corriam para brincar no pátio, ensolarado, cuidado e florido.

S. Arlindo cuidando das árvores e das plantas. D. Zilá fazendo pão-de-ló ou outras gostosuras para o café da tarde de sábado.

Meus netos também brincaram no pátio com a Prenda, a pointer mansa e brincalhona e com a Natalina, gata resgatada pela Cláudia, numa noite de forte chuva de natal, em São José do Norte.

Resgatar animais fragilizados ou feridos, muitos deles atropelados em frente a sua casa, avenida de grande movimento, era uma das qualidades da Cláudia, cuidava deles que, por fim, passavam a morar ali.

São muitas recordações, depois de cada viagem elas voltam avassaladoras.

Não vou mais ao pátio, prefiro me lembrar como era, com a presença dela ali, cuidando de tudo e muito chimarrão entremeando nossas conversas.

Carta para a Cláudia, por ocasião de seus 52 anos

Claudia minha filha, em um domingo de outubro, de 1967, nascia em nosso jardim uma flor.

Ela era a mais bela.

Há poucos anos atrás ela plantava, nesse mesmo jardim, um pé de lavanda.

Hoje que ela não está mais aqui, ficou o perfume lindo dessa lavanda, para perfumar a nossa vida e nos emocionar e nos trazer a saudade da sua presença.

Fazes parte de tudo aqui filha.

Que Jesus te abençoe e te guarde e que Maria passe na tua frente e vá deixando, no teu caminho, as estrelas do seu manto.

Paz e luz filha te amamos!

Mãe