A última noite

Estou indo embora, hoje é a minha última noite em Pelotas. Lembro que minha filha me disse um dia que os bons motivos para aqui vir estão acabando, um pedaço de mim está ficando dessa vez, viagem inacabada. Sempre vim resolvi o que tinha de resolver e voltava, visitava parentes, amigos, restaurantes e lugares de que gosto e só. Tudo foi diferente agora, a casa está vazia, Pelotas cheira melancolia, a saudade esteve sempre presente.  Anos depois voltei ao Laranjal, amo, mas amo tanto que tinha medo de não ser o mesmo, por isso durante anos não fui.  Tomei chimarão na beira da praia, conversei horas e horas, fui enfermeira, revisitei lugares importantes para mim. Minha viagem do avesso, porque nada foi direito, nada foi igual. Questionei os desígnios, conversei sobre eles. O porquê de estarmos passando por isso… Por que uma mãe aos 80 anos tem sua filha subtraída, como viver, conviver com tudo isso?! Não consigo uma resposta sequer e deixo Pelotas sequelada. Passei uma semana que se tornou um tempo muito pequeno, fiz muito, mas não fiz tudo.  O principal não aconteceu, vim pedindo milagre, não fui atendida. Estive na Cláudia, ela não voltou. Senti que naquela terra não há espaço para mais ninguém, ela está completamente lá, mais ninguém terá lugar, porque não há,  ela conquistou a sua terra, não usurpou.  Desculpem se meu texto não é claro, minha mente também não está.  Volto pedindo em oração um milagre multiplicado. Quero muito voltar para conversar com minha amiga e comadre, quero ver sua casa cheia de vida, alegre, gramado cuidado, jardim florido. Tomar meu chimarrão em meio a conversa gostosa. Minha família esteve sempre presente comigo, ajudou muito. Então continuo pedindo em prece, Senhor nos conceda essa bênção!

Esperança

Tu sabes que estou em Pelotas, hoje foi a segunda vez que estive no teu endereço,  andei pelo teu pátio duas vezes, fui visitar a tua mãe, sem, entretanto, me permitir entrar na tua casa, ela só será visitada quando puderes me receber. Já estive lá duas vezes só essa semana, com receio de não estares, mas estavas, senti a tua presença comigo o tempo todo, tinha uma paz interior e uma calma constante, pude ficar com a tua mãe, fortalecer a nossa fé na tua volta, oramos por ti e pelo teu bem estar.  Hoje os adultos e as crianças, minha família,  foram comigo, meu filho, nora, mãe e netos ali estavam. Fui com os pequenos para o pátio, juntamos as nozes, colocamos para secar, meus filhos já fizeram isso ali, trinta anos depois os meus netos seguem a mesma tradição. A tua presença física não havia, mas como te senti fortemente comigo Cláudia, não tem como não estares naquele pedaço de chão, tive medo de esmorecer, chorar, contudo, estavas ali comigo, percebi a tua força ali, em nenhum momento fraquejei.  Foi bom retornar, pude abraçar a tua mãe sem medo, transmiti todo o meu carinho, como se fosse a ti que abraçava, tantas lembranças guardadas voltavam, não me senti só, o teu chão não é terra arrasada pela ausência, ali o solo só está adormecido, aguardando para florescer no primeiro sinal que enviares. Tens tanta presença, cada metro está marcado pela tua mão, desses tanta vida àquele lugar, que ela rodeia a quem ali pisa.  Estavas comigo!  Que bom, não puderam desaparecer contigo, a Cláudia vive!

Pelotas

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Amanhã lá eu estarei novamente, laços ficaram e eu vou resgatá-los. Um dos bons motivos para voltar a Pelotas, além de minha família de sangue, sempre foi a minha comadre, ali me sinto em casa, na Avenida Fernando Osório, e já faz muito tempo que esse sentimento me assola quando pego o expresso embaixador. Assim que pisava no aeroporto ligava o telefone para dizer, cheguei, então combinávamos que quando o horário do ônibus estivesse certo eu ligaria ou enviaria uma mensagem, para três horas mais tarde ser pega na rodoviária, nem sei há quantos anos fazíamos isso, quente ou frio, fosse qualquer hora, ela estaria lá com o chimarrão em punho para me esperar. Amanhã será diferente, a rodoviária não terá essa pessoa tão ilustre para mim. Estou escrevendo agora e já comecei a chorar, as lágrimas não querem ficar no seu devido lugar, estão reclamando e descendo de saudades antecipadas. O momento que mais tem me assustado nos últimos tempos está chegando e confesso que tenho medo dele. Não sei como será chegar em Pelotas sem a Cláudia lá, por mais que eu tenha pensado nisso, nos últimos tempos, acho que passarei por um vendaval interior. Acho que preciso comprar um desses calmantes fitoterápicos, pelo menos para me dar um certo conforto, porque amanhã a ficha vai cair, o tapa na cara vai doer realmente, não haverá a distância, será concreto, a Cláudia desapareceu! Tenho sempre escrito aqui as minhas conversas com ela durante esses mais de cem dias, colocado os meus sentimentos, fazendo com que ela esteja sempre presente nos meus dias, de certa forma isso me ajuda a levar. Mas o que farei com a ausência concreta ainda não sei… Essa realidade dura, nua e crua, ainda não vivi, sei que é real, mas de longe dói, agora será escancarada. Coloquei a imagem da igreja cabeluda por ser uma coisa que realmente representa Pelotas para mim, mas também como uma oração, pedindo a Deus que acabe com esse pesadelo, durante esses meses e dias pedi para Ele, que se pudesse, me concedesse a graça de chegar em Pelotas e ter a Cláudia de volta ao nosso convívio, não poder sentir a dor da ausência dela, era uma esperança real para mim.  Estarei lá com os meus e sem ela, triste ida a Pelotas, que isso não perdure, que seja passageiro, que ela esteja sempre conosco, que ir a  Pelotas seja sempre um motivo de felicidade, essa foi a minha oração de hoje. Amém!

Nossas conversas

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Estava relendo nossas conversas, não pude deixar de rir, essa foi a última foto que te mandei e recebi essa resposta: “Então noiva? Parabéns pelo noivado, estamos com saudade.”. Meses depois deixei este recado: “Por onde você anda comadre? Tenho um monte de coisa para falar e te atualizar, rsrsrs, beijos”. Como essas trocas sempre foram importantes entre nós, uma foto, poucas palavras, já sabíamos que alguma coisa havia acontecido, antes era ir na tua casa, depois o telefone, com a minha mudança para Brasília, e no corre corre do nosso dia-a-dia deixávamos rápidas mensagens para sinalizar uma futura conversa, fosse messenger, Skype, WhatsApp, assim mantínhamos o vínculo de amizade, tudo o que fosse importante era dito para depois ser aprofundado. Em Pelotas ainda eram necessárias nossas madrugadas.  Reler as conversas me lembra do quanto nosso vínculo é forte, trocamos, dissemos, falamos, rimos, choramos, aí, nesse final de semana, vendo o vídeo da entrevista da tua mãe e do Pedro, percebo a nossa foto do lado dela, mais uma constatação do quanto a tua família também é minha. Nos tornamos verdadeiras irmãs. E agora Cláudia?! Para quem vou correr, há mais de 30 anos é para ti que envio meus sinais, tem coisas que só uma pessoa pode entender, que só uma pessoa percebe de primeira, que uma rápida olhada já é compreendida.  Sim, assim como tu, também tenho mais amigos, mas não tenho outra confidente.  Então, resta um monte de interrogações. O  jogo está interrompido, estamos no intervalo, um longo intervalo. Algum sacana quer ganhar de W0, porque não sabe jogar, é um perdedor, precisa da vida de outra pessoa para ser alguém, estupidez humana,  humana, resta humanidade nessa criatura?! Mas vou comunicar que a partida vai reiniciar, tem muita gente torcendo para isso, e essa torcedora mor estará ao teu lado para o pontapé inicial do segundo tempo, com muita garra e determinação.  Me aguarde Pelotas, me espera Cláudia!

Melancolia

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Sei que melancolia é uma palavra de significado triste para algumas pessoas, para mim é uma palavra bela, traduz mais de um sentimento, junta tristeza, saudade, recolhimento, introspecção, tudo junto ao mesmo tempo, enfim, diz o meu estado de espírito atualmente, momentos alternados de uma quietude na alma, com erupções de raiva, de verborragia, de uma solidão necessária. Consegui ficar estranhamente mais branda com os que cometem pequenos erros e absurdamente nervosa com aqueles que não demonstram sentimento. Não me cobro, não é a ocasião própria, aprendi a ser condescendente comigo, como tenho sido com as pessoas que me são importantes.  Mas o mundo quer me ensinar uma estranha lição, até agora não entendi… Gosto dos meus momentos sós, não fujo deles, ao contrário, preciso deles. Mas a atual tristeza, ou melancolia, ou ainda a soma das duas, não se originou em mim, o mundo acabou de me dar um tapa na cara, me mostrou que a humanidade não existe, existe uns poucos humanos, pessoas que ainda acreditam nos outros semelhantes.  A subtração da Cláudia ainda me perturba diuturnamente, durmo, acordo sem desligar, penso nisso o dia todo e, quando menos espero,  isso me derruba, aí necessito do meu sagrado refúgio, minha alma, minha solidão.  Sem isso não consigo levantar.  Consegui compreender exatamente o quanto a tristeza nos é importante. O recolhimento nos proporciona aproximar dos mais puros sentimentos. Viajo para um passado remoto, outro recente, consigo trazer tantas lembranças guardadas e adormecidas. Me encontro reavaliando as importâncias, o que vale realmente a pena. Não estou conseguindo explicar o tanto que esse tapa está doendo, só percebo que há uma marca vermelha em minha face há quase 100 dias.  Só a volta da Cláudia pode amenizar esse edema que se reflete no meu interior. Deus obrigada por me entender tão perfeitamente com todo o seu amor, onisciência, só um verdadeiro pai pode nos acolher na dor e melancolia.

Segunda

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Já é segunda feira e a semana começou, pela manhã o trabalho chama e lá vou eu, não por inteiro, uma parte de mim está no dia 9 de abril e não quer voltar, por mais que minha racionalidade insista, meu coração tem vontade própria e ficou preso no tempo.  Já estava deitada quando me chamastes para conversar e, como sempre, aqui estou em mais uma madrugada, sem café, sem chimarrão, só contigo, assim poderei prestar mais atenção. Tenho em mim uma grande necessidade de te ouvir, o silêncio e a solidão são necessários, mas não estou completamente só, estás aqui em pensamento, então estás comigo.  Sobre o que queres conversar hoje?! Tudo está estranho, confesso que hoje ao ler a página dedicada ao teu desaparecimento não entendi nada, saístes sozinha pelo mundo, existe essa teoria…  Sei que não, tinhas muitos motivos para ficar, fugir nunca foi uma opção, nunca fugimos, não é mesmo?! Sempre enfrentamos tudo e a todos,  bem, eles não te conhecem, não fica brava. Outro comentário é que estavas acompanhada de um homem, sim existe a pessoa que acha que te viu pelas bandas de Canguçu, em direção de Piratini.  Mais uma novidade, agora não é mais um, são dois. É tanta coisa que já li que não tenho vontade de ler mais.  Até revidei algumas dessas teorias, mas sabe, acredito que as pessoas precisem falar, na página, no computador, ao vento, então vou deixar, tem coisas que não temos como evitar.  A tristeza é uma dessas coisas, todos estão tristes com a tua falta, ausência, vazio.  O que fazemos agora?! Estou aqui, no silêncio da minha sala te pedindo uma resposta, uma partícula está travada, se passaram 90 dias, o que que é que a gente faz agora? Eu particularmente tenho vontade de gritar com meio mundo que diz sentir o teu desaparecimento, não vocês não conseguem sentir o que estamos sentido, só quem já passou por isso sabe o que é esse misto de desespero e dor e falta e vazio, vocês podem ser solidários, mas estão sentindo isso?  Deixaram de dormir? Suas vidas pararam no tempo? Fazem as coisas no automático? Estão atordoados?  Não, né?! Então, não digam que sabem o que  estamos passando,  não sabem, não tem como imaginar, até o dia 9 de abril eu também não sabia.  Hoje peço desculpas as pessoas e famílias que estavam vivendo isso, sim eu nunca imaginei que doesse tanto, perdão por ter um dia, pretensamente, acreditado que o que vocês sentiam poderia ser expressado por essa mortal que nunca havia tido uma experiência igual, só me resta pedir perdão, perdão, perdão… Pobre pessoas, eu também já fui uma delas… Cláudia, tá difícil, muito difícil mesmo, sempre gostei do diálogo, estou tendo que aprender o monólogo, não quero isso mais, volta!

Combinado

Bom dia!  Acordei chateada hoje, reflexo de ontem, passei o dia esperando notícias tuas,  era aniversário de Pelotas, não sei porque associamos que tu poderias voltar para completar a festa.  Não aconteceu, então veio a frustração. Decidi fazer uma combinação contigo, queria que me enviastes um sinal, uma luz, uma dica, fica combinado que vou seguir em tua busca,  OK?!  Afinal, nunca faltamos uma a outra,  sempre nos entendemos nesses anos de amizade, nos perdoávamos mutuamente, porque assim é uma verdadeira amizade.  Então estou brava, com o tempo, com o frio, com o cinza dos dias, com a tua falta.  Estou tão furiosa com quem fez isso que chega a doer.  Ontem li duas coisas que mexeram comigo, a primeira dizia, quem levou a Cláudia deixa ela num banco de praça, pode ser drogada, só queremos ela de volta, aí eu digo,  pelo amor de Deus faz isso, nos devolva, sentimos a tua falta, tua mãe precisa de ti. A outra mensagem dizia que os homens podem não conseguir justiça, mas há a justiça divina, quero crer que isso vai acontecer, mas agora, não me interessa quem foi,  o que me interessa é que voltes, nós vamos te cuidar até ficares bem.  Sempre fostes forte, não vai demorar para te recuperares. Teus primos tem sido incansáveis na tua busca,  quando chegares faremos uma festa. O pessoal da  Biotecnologia, tenho certeza, entra nisso conosco, o trabalho sempre foi muito importante para nós, quase uma segunda família.

Então fica combinado que tu voltas e eu ajudo a te cuidar. Agora vou esperar que o Homem lá de cima leia isso e interceda por nós aqui embaixo.  Interceda por ti…

Alma

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Hoje lendo mensagens aleatórias, percebi uma coisa que nos unia de forma, necessidade, diferente. Sempre tive o desejo de ser livre, meu âmago sempre ansiou por isso, liberdade, no fundo, era o desejo da alma. Contigo percebi  que isso também aconteceu, mas apenas precisavas entrar no laboratório e pesquisar o universo paralelo que esse mundo microscópico propiciava. A viagem começava numa pequena sala com um potente microscópio.  Porque as mensagens me levaram a esses pensamentos, deves estar perguntando, simples, falavam em sonhos, voar,  se permitir e podar, cortar, prender,  tolher, afogar, sim antônimos, porque algumas pessoas tem medo da liberdade de alma de outrem. E, aí, não lhes resta alternativa a não ser ser o antônimo que tenta submergir as tentativas de vôo de uma alma livre. Creio que essa seja a melhor explicação para o que possa ter acontecido contigo, uma radicalização do poder de coação.  Em meus pensamentos acho uma parca racionalidade e creio que, num momento de felicidade, caridade, descontração, perdestes o devido cuidado, tinhas tido um bom dia, uma noite leve, como poderias imaginar que a escuridão estava rondando os teus caminhos?! Mas uma alma sombria precisa sorver a luz de outra para sobreviver, fostes sugada num desses momentos que nunca podemos imaginar que possa acontecer em nossas vidas.  Os opostos são comuns em nossa vida, podem se tornar agudos, tão abismais que fogem de nossa compreensão. Oravas pelas almas perturbadas, pedindo luz para elas.  Sempre foi assim. Mas foi uma dessas almas perturbadas que te tirou de nós.  Não há tristeza maior que a poda de liberdade, da sanidade mental, da felicidade, do existir de um de nós.  Rezo, como tu, por essa pessoa sombria, para que tenha um momento de lucidez e possa te devolver para nós, que a tua luz alimente sim essa sombra e a traga para o sol, aqueça seus gélidos pensamentos, mesmo tolhida em tua liberdade, que a tua alma seja livre, como quando viajas no laboratório permita que esse ser se transforme em humanidade e te traga de volta ao nosso convívio.  Deus permita que nosso desejo comum de te rever entre nós, transforme o mal que te fizeram.  Meu texto se transfigurou em oração, assim acontece todos os dias, horas em que penso em ti, rezo para que estejas bem, e que a tua alma brilhe para que possamos te alcançar.