Férias

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E então tu saístes de férias, longas, deixando-nos aqui atordoados sem saber para onde viajastes?! Quanta crueldade de tua parte em não nos contar isso, como somos idiotas, não é mesmo?! Estamos aqui firmes assistindo a exposição da tua vida por todos e por ninguém …  Quem em uma teoria insana poderia achar que estás a passeio?! Não estamos fantasiando o teu desaparecimento, mas ainda não temos um corpo, ainda não temos um acusado, ainda não temos um culpado, não temos provas que estás morta… Então, por mais mínima que seja a chance de estares viva, em cárcere, vamos pensar no milagre da tua sobrevivência, mínimo, mas existente. Não importa que estejamos sendo julgados pela nossa fé, acham que não pensamos o pior?! A todo o momento esse terrível pensamento povoa as nossas mentes, já choramos intermináveis vezes por aquilo que não sabemos e nos assombra. Essa situação é um pesadelo constante, está corroendo cada um de nós que te amamos, sim, te amamos inexplicavelmente até quando estás sumida. Não conseguimos separar o antes e o depois, caímos na malhação de Judas como traidores, porque te amamos e vamos preservar e defender o que for que te diga respeito, porque assim tu irias querer, porque assim fizemos por mais de trinta anos uma com a outra, por lealdade, por amizade, por amor. O que te aconteceu nos interessa mais do que a qualquer outra pessoa na face da terra, principalmente a tua mãe, que precisa de consolo todos os dias para não cair. As suposições ficam a margem, comparadas aos nossos dias de padecimento e de amargura, não são nada, é resto, joga-se no lixo. A ficha já caiu há muito tempo, mas silenciar é o melhor a fazer, muito se tem a dizer, na devida hora, não é o momento, temos os nossos motivos que não são da satisfação de ninguém que não te conhecia, apenas nossos. No devido instante as máscaras cairão, a verdade inexóravel aparecerá. O nosso choro é doído, expressa o nosso sofrimento, diferente dos que irão chorar de remorso e compunção. Essa falsa noção que nos impingiram de férias é injusta, na pior ausência viva que estamos sendo submetidos, e é a pior piada que uma pessoa pode fazer a quem está sofrendo, para quem foi imposto o desaparecimento de uma pessoa amada.  Rufem os tambores, longe, por favor, precisamos do nosso silêncio.

Restrições

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Hoje iniciei mais uma dieta, no dia seguinte ao teu desaparecimento larguei de mão a que vinha fazendo, a tristeza foi me consumindo e me deixei levar, comer aliviava, não ser tão rígida também, mas isso não é uma solução, isso é entrega, não é isso o que eu quero, não vou me entregar, não vou descontar na comida, vou me cuidar como sempre fiz e como você sempre incentivou, ser relapsa não vai adiantar nada, então vamos em frente. Não posso mudar o que aconteceu contigo, posso sim estar bem para os próximos dias, meses, anos. Emagrecer sempre foi difícil pra mim, sabes disso, não como tanto assim, mas gosto de doces e o que como pesa muito na balança, mesmo tendo uma dieta que sempre incluiu verduras, legumes, frutas, pouco carboidrato, nada de fritura, cada pouco de açúcar que entra no meu organismo se transforma em muito para quem tem insulina, mas a mesma resolve não fazer o seu papel e transforma tudo em gordura. Me rebelei por uma crise de ciático, meu corpo está reclamando do sobrepeso, o que posso fazer?! Voltar a eterna rotina de dieta, assim foi desde os meus 13 anos, haja paciência, disciplina e força de vontade. Um primo astrólogo ao desenhar o meu mapa astral me disse, em uma das fazes mais magras de minha vida, que em meu mapa revelava uma eterna tendência a engordar… Cruel destino para quem a vida inteira gostou de cozinhar e que estuda culinárias diversificadas, temperos, especiarias, assiste a programas internacionais de gastronomia. Sempre pensei que quem cozinha transmite o seu afeto pela comida, acredito piamente nisso, estar irritada e cozinhar não combinam. Então, agora, me resta inventar muita coisa boa com o meu conhecimento para fazer os melhores pratos da minha dieta restrita. Quero muito que possas me ver mais magra, de cabelo cortado, a última vez que vistes brincastes que nunca tinhas me visto com o cabelo tão comprido. Cortei na semana seguinte que nos vimos, mais precisamente na véspera do teu desaparecimento, portanto não sei se chegastes a ver… Tem sido bem difícil não poder compartilhar todas essas mudanças contigo, espero, fortemente, que essa vida e acontecimento que não posso modificar, me dê a oportunidade de poder te mostrar esses resultados. Por enquanto, vamos nos falando por aqui, OK?!

Pesadelo

 

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O que nos leva a revisar o passado, olhar posts, inclusive do antigo orkut, apenas uma tentativa para amenizar a angústia do presente e a incerteza do futuro. Relembrar coisas bobas e boas, uma mensagem aqui um recado ali, trocas de palavras, uma fotografia, qualquer coisa… Estava ouvindo Be My Baby e lembrando do quanto gostas de dançar e quantas vezes saímos para isso, vida, cheia de vida, sonhos, projetos e alegria, é assim que penso sempre em ti. Música sempre nos fez bem! Foram muitos aniversários em família, muitas festas ou mesmo colocar música em casa para dançar, até algumas malfadadas aulas para o meu afilhado, rimos muito os três. Essa é a grande verdade da vida, somos a soma de nossos encontros pelo caminho, no nosso caso uma soma muito gratificante, uma grande recompensa, e por mais batido que seja, completamente explicado por Antoine de Saint-Exupéry. Sempre escrevo motivada pela possibilidade de um dia podermos trocar idéias sobre tudo o que tem neste blog, sobre tudo o que aconteceu, de poder até ouvir: ah, vai te catar Adriana, rsrsrsrsrs, muitas saudades, até dos teus xingamentos, do teu jeito irreverente com os teus. São coisas que aos outros podem parecer insignificantes que me fazem recordar esse jeito, uma marca de carro específica, uma moto, um caminhão, adoravas os três, dirigindo na ida ou na volta para o trabalho isso é constante; uma determinada música, um tipo de comida, um cheiro, um perfume específico, couro, ah, são muitas coisas mesmo, uma oração. Todas tem um significado especial em uma parte da tua vida, pois tem o seu valor próprio para quem te conhece.  Recebo mensagens variadas de pessoas dos mais diversos lugares, elas me contam o quanto estão sensibilizadas pelo teu desaparecimento e que estão em oração por ti, imagino o quanto isso é forte para esse universo de energias, força, vontade. Se depender dessa união de fé te teremos conosco, sabes, estás aqui todos os dias, em pensamento, mas não basta. Voltaire tem razão…

Ano Novo

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Quando eu era criança ficava na janela a meia noite esperando o ano velho, um ancião com uma túnica surrada, na minha cabeça, passar e dar entrada ao ano novo, uma criança em sua vestimenta branca de anjo. Naquela época os ônibus que passavam buzinavam nessa hora, então pra mim era assim que um ía embora e o outro chegava, dentro de um ônibus barulhento. Foram anos e anos olhando para a Dom Pedro II, pela janela da casa da minha avó, sempre esperando ver a imaginação de minha cabeça se tornar real, nunca consegui, mas todos os anos ela voltava nitidamente. Os Natais sempre foram mais festivos, mas a passagem de ano sempre foi mais mágica, com direito a contagem regressiva. Poucas pessoas restavam no ano novo na casa da vó, ela,  minha tia e filhos e nós.  Não sei quando deixei de esperar para ver essa troca do ancião de barba branca pelo menino angelical de cabelos cacheados. Esse imaginário foi se dissipando e dando lugar as histórias para os meus filhos, as festas foram mudando de endereço, novas pessoas passaram a comemorar comigo essa data, a vida seguia seu curso. Os costumes e tradições se amontoavam e no meio do caminho da minha vida agora tinha uma nova amiga que comemorava o seu ano novo comigo.  Combinávamos o prato que cada uma levaria para a festa, geralmente o que fazíamos melhor. A Cláudia fazia uma torta fria de frango incrível, uma das melhores que já comi. Muitas vezes fiz minha torta de nozes. Lembrei hoje dessa data, da renovação dos anos, das pessoas, das comidas, dos barulhos, muitas recordações, sem critério, atemporais, loucas e súbitas. Anos e anos de festas em comum, de planos contados ou combinados e de repente sequer posso ligar para conversar. Não entendo ultimamente os meus sonhos ou lembranças, acontecem me pegando de surpresa. O ancião levava consigo tudo o que de ruim tinha acontecido no ano que findava, o menino trazia as boas vindas ao ano que se iniciava, prometia um ano bem aventurado, quero crer que lembrei  disso para acordar desse sonho ruim, para recomeçar, para poder festejar novamente com a Cláudia, um novo ano, começando no dia do seu retorno.


Meu copo cheio

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Me esforço todos os dias para manter o bom humor, perceber em cada detalhe da vida uma maneira de me sentir mais motivada, faço dela um eterno aprendizado, assim vejo sentido em nosso percurso.  Conheci pessoas amargas, angustiadas, não conseguiam ver o copo meio cheio, tampouco percebem no outro a alegria de viver. São críticas, principalmente com o outro, a maquiagem está borrada, o vestido não caiu bem, a gravata não tem uma boa cor e está torta, isso é o leve. O tempo passa e com a idade tudo se agrava, me pergunto se essas pessoas puderam desfrutar na vida o valor de uma grande amizade, porque amigos, o amor de um amigo, a troca de sentimentos é fundamental para amenizar as dificuldades de nosso dia a dia. São o nosso afago, o nosso apoio, o nosso conforto, amenizam a dor. A falta de respeito, de carinho com o semelhante, a acidez de comentários no meu pensamento é o resultado de uma vida onde faltou amor, fraternidade, solidariedade, tudo aquilo que uma amizade verdadeira nos proporciona.  O julgamento impiedoso traduz muitas vezes o que a pessoa tem de pior, a solidão, uma vida vazia, uma falta de se dar. Não teve como, faltou isso no decorrer de sua empreitada, resultado, não sabe o que é o amor verdadeiro. Precisa diminuir os outros para compensar o que lhe faltou.  Triste existência, amarga, sofrida, angustiada, infeliz, tenho dó, compaixão, porque é o único sentimento que posso dispensar, pelo menos para quem não conheço, mas consigo perceber o quanto lhe falta. Tenho amigos verdadeiros,  leais, que me dispensaram tanto carinho e amor na minha existência que pude aprender a compartilhar, dividir, doar o meu coração, minha dedicação, meu âmago, desde criança recebi esse apoio inestimável.  Fui presenteada com as mais diversas formas de amor, como sou grata! Não sou perfeita, ninguém o é, momentos de copo meio vazio existem, busco lá no fundo olhar de novo e focar, buscar o cheio, um pouquinho mais, ele vem.  Só posso me orgulhar de minhas amizades, são tão gratificantes e agradecer por ter sido presenteada com essas pessoas, como a Cláudia!  Momentos difíceis tive muitos, todos sabem que estou vivendo um, eles, meus amigos,  estiveram e estão sempre comigo, perto ou longe preenchem o meu coração e não dão espaços para amarguras desnecessárias. Pobre de quem leva a vida a criticar, destilar o seu veneno, que existência miserável, são pessoas sedentas por migalhas de atenção… Que Deus ampare…

Canetas

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Em diferentes épocas de minha vida ganhei três canetas, não as uso, porque são de marca, não lembro exatamente qual de duas, uma  Swarovski, uma suíça, outra francesa , foram caras, um bom motivo para guardar, será?! Esse pensamento insólito aconteceu ontem no meio de uma reunião, por que guardar?! Usei pouquíssimas vezes na vida, duas sequer usei, mas estou guardando para que?! Acho que guardo para ocasiões especiais.Temos essa mania de guardar coisas para uma ocasião especial, então estou aqui dizendo que não vou guardar mais nada, a ocasião especial é hoje, porque estou aqui, lúcida, íntegra e ganhei coisas pela vida porque algumas pessoas dispensaram seu precioso tempo para me dar um presente, agradeço, ganhar uma lembrança é muito bom, revive nossa criança interior, dar também é, saber que você tem a possibilidade de fazer uma pessoa feliz, ter esse pequeno poder em suas mãos, o da felicidade,  é poderoso. Lembro de um lençol que ganhei de casamento, foi ricamente bordado pela minha avó paterna para o seu enxoval, linho branco, peça importada da França, carreguei comigo anos, usei umas duas vezes, até que na mudança para Brasília foi perdido, a perda dói pelo significado sentimental, e porque quase não usei algo tão lindo. Vamos deixando partes de nós pela vida, algumas usadas, outras guardadas. Esse sentimento de usar me lembra a Cláudia tão fortemente, cada peça antiga encontrada fazia seus olhos brilharem, limpava, restaurava, usava… a maior parte dos móveis e decoração da sua casa surgiu de algum objeto que alguém dispensou, depois de anos guardado, e ela colocou para uso, cristaleira, mesa, cadeiras, cama, quadros, coisas que para nós seriam quinquilharias viraram jóias de ornamentação da casa. Tinha um bom gosto peculiar de aproveitar o guardado, coisas que eu não usava cedi para o seu uso. Fazíamos assim, eu dava algo, ela encontrava uma coisa que tinha certeza que eu iria gostar, não eram as coisas que importavam, era a nossa troca de sentimentos, sabíamos o que faria a outra feliz, um tônico de vida, pequenas alegrias. Não vou guardar mais nada, nem as canetas, lembrei da Cláudia, lembrei do sentimento de felicidade por usar um presente de uma amiga…

Janela

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Todos os dias quando acordo vejo como está o tempo e a temperatura, nos primeiros dias do teu desaparecimento isso não se fez tão importante, até os primeiros dias frios, muito frio,  lembro do nosso sentimento de pavor nesses dias, como você iria sobreviver a isso?! Vários dias foram se intercalando com tipos de temperatura diferentes, não foi um inverno tão radical, isso alivia um pouco. Mas olhar pela janela se tornou um hábito, parece acontecer uma breve conexão nas primeiras horas do meu dia contigo. Ali busco ver como tu poderias estar. Lembro que no início do frio íamos buscar as malhas da Meri, botas Capodarte, biotipos diferentes, mas mesmo gosto pela qualidade. Quantos anos fizemos isso, mesmo estando aqui quando ía a Pelotas dávamos uma chegada na Quinze, depois na galeria Satte Alam, lá no meio um café espesso (como os italianos), íamos na fábrica na Anchieta, as malhas enchiam os olhos, cores e modelos. Temos várias eu e tu… É como fazer um circuito turístico, no pouco tempo que dispomos, caminhar, conversar, olhar o que gostamos, uma terapia. Todos os dias olho pela janela a noite também, busco nossas conversas, aquelas que tínhamos a noite, quando a cidade desacelerava, a noite traz mais lembranças, baile do longuinho do Dunas, a boite do Direito, a lagoa do Laranjal, as infinitas trocas de confissões e risadas. A janela me transpõe ao sul, procuro te encontrar nessa breve viagem tempo/espaço, talvez a tão falada física possa me explicar o porquê te sinto tão presente nesse curto espaço de tempo, só sei que ele tem sido muito importante para mim, calmo ou agitado, tu estás comigo.

Linchamento!

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Interessante o que acontece com as pessoas quando estão juntas, podem virar uma turba, podem linchar…
Se você puder só pensar, um pouco, num local isolado, sem influências, me responda, uma das pessoas que você mais ama desapareceu… como você está se sentindo?! Pensa um pouco, se recolha, se coloque no lugar dos outros, estou pedindo pouco tempo seu, estamos há 154 dias assim, 9240 horas, 554.400 minutos, você imagina um inferno?! Estamos nele… Então me dá 10 minutos hoje, para pensar, ser solidário, tentar passar um pouco de tempo dentro desse drama… Conseguiu se colocar no lugar do seu semelhante?! Estou pedindo tão pouco… Perto do que a família da Cláudia está passando isso é um nada, entendeu nada… O que posso mais dizer?! Posso falar da exposição de suas vidas, de sua filha, de sua mãe, de sua esposa, de sua irmã, de sua amiga, de sua colega, não só dela, da casa, da vida de todos… um mundo que ruiu, de repente, do nada, sem explicação… Está sentindo a dor?! Quantos comprimidos, ansiolíticos, para dormir, para aguentar o dia você acha que essa família teve que tomar?! Você estaria como? Por favor, me diga, me responda… Mas não basta sofrer, tem que aguentar a exposição pública, pessoas que não conseguem ter um mínimo de tempo para ao menos tentar se colocar no lugar do outro, sabe por quê?! Porque como diretores de um teatro ensandecido eles rufam para os seus atores gritarem, porque assim serão ouvidos, não reflitam, gritem, acusem, cuspam as palavras em cima deles, os dobrem, quebrem a sua coluna, nada é suficiente… façam falar, façam falar, torturem, vamos, vamos, vamos, assim vamos espremer, até pingar o sangue. Não basta terem perdido a Cláudia… Refletiu?! Como é o inferno? Como você está se sentindo?!  Só posso dizer uma coisa, nada atinge mais, porque a maior dor foi o desaparecimento da Cláudia, então o mais é nada, nada, nada… Incomoda? Claro que sim, você já foi caluniado?!  Foi atingido em sua reputação, em sua honra, por acusações falsas?! Como foi?! Ficou bem?! Quero que pensem… Existe uma integridade que não pode ser violada, eles lutam pela Cláudia, são destemidos, se amam, então podem bradar, essa coluna não vai se dobrar, trincar ou quebrar, a Cláudia está no comando! Que venha o linchamento!

Sofisma

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Há muitos anos tive um professor brilhante de filosofia, discordávamos de muitas coisas, eu era jovem, fácil de incendiar com minhas ideologias, mas nos respeitávamos, com ele aprendi uma coisa primordial na vida, não me enganar com sofismas, preciso me lembrar de agradecer, o que fiz naquela época, mas relembrar é viver. Pergunto as pessoas que me lêem, se um dia acontecer uma tragédia na sua vida, que envolve uma pessoa muito querida, como você irá ajudar?! Eu não sei o que aconteceu com a Cláudia, posso adiantar o seguinte, muitas, mas muitas coisas me passam pela cabeça… Estou fazendo alguma coisa por ela?! Todos os dias… Falo aos quatro ventos o que estou fazendo?! Não! Por que faria isso?! Presto contas disso a terceiros?! Não, não e não. Quanto maior reserva, melhor para a Cláudia, ninguém está brincando de detetive, estamos tratando com uma vida, que ainda pode estar em perigo, sim, ainda não se tem notícias de sua morte. Podem ridicularizar, xingar, tentar desmerecer minha amizade ou a seriedade da família, menosprezar nossa inteligência e discernimento, seja lá o que for… Não estamos aqui para agradar, não usamos longos textos cheios de sofismas (lapso ou a intenção de iludir), porque não estamos querendo enganar, esconder o jogo, jogar a sujeira para debaixo do tapete… Aqui não tem jogo, tem uma mãe, uma filha, uma esposa, uma prima uma amiga, uma colega desaparecida, então sinto muito, há tempo de plantar e há tempo de colher. Investiguem, façam o que quiserem e como quiserem, estamos aqui de peito aberto, não temos uma verdade para oferecer, não sabemos o que aconteceu, porque se soubéssemos, haveria alguém preso, pagando pelo crime que cometeu, teríamos a Cláudia de volta ao nosso meio, fosse da maneira que fosse. Não uso aqui meias verdades, eu escrevo com o coração, com a emoção, sem freio, a racionalidade de quem tem que usar meias palavras deixo para os desonestos, para quem inventa, distorce, ilude. Não é o meu caso, tenho consciência do que aconteceu, sei como posso atuar e não devo satisfação a ninguém, muito menos a quem usa da tragédia humana para denegrir, apontar, acusar, sem critérios, sem decoro, sem ética. Façam a imagem que quiserem de mim, não usem a Cláudia como desculpa para oferecer o seu circo a pessoas bem intencionadas, que de boa fé confiam, que estão sendo iludidas. Travem as suas lutas pessoais nos seus quintais, deixem que nós, as pessoas que verdadeiramente amam a Cláudia, possamos, com a nossa dor e a nossa luta, cuidar da melhor maneira o desaparecimento dela. Sim, a verdade vai surgir, não sei quando, mas irá… Talvez nesse dia vocês estejam se alimentando de outra tragédia ou crime e já tenham deixado para trás o lodo da sua miséria pessoal. Nós estaremos dando o merecido suporte e conforto para quem mais sofreu com tudo isso. Meu carinho é imenso com aqueles que verdadeiramente estendem as suas mãos. Tenham certeza, há pessoas que sofreram muito mais do que eu, apenas estou tentando dar o meu melhor, e isso não inclui as pessoas que estão julgando sem conhecer.

Cinza

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Flores da casa da Cláudia

Depois de dias ensolarados, quentes e secos  Brasília amanheceu cinza, nublada, com uma leve garoa me remetendo direto para Pelotas, como aqui meus olhos estavam úmidos, não deixei de pensar em ti, várias vezes eu chorei, a saudade é imensa e o dia 9 está marcado para sempre.  Coloquei essa foto de orquídeas, são do teu pátio, a Clarice bateu, não são lindas?! O céu ao fundo também está cinza, sente a tua falta, nem a beleza das flores consegue disfarçar.  Estou sozinha aqui na sala escrevendo, sufocada, triste, tem hora que o desespero bate, estava pensando no teu jeito de falar, se ainda lembrava da tua voz, queria tanto conversar… O céu cinza do Sul sempre me deixou nostálgica, me traz melancolia, hoje ele te trouxe.  Lembrei dos lugares que me fizeram feliz, a casa da Osório, a da minha avó, o  Laranjal, será que a vida é isso, reviver locais de alegria que o tempo torna de saudade, as imagens ficam cinzas, como uma fotografia colorida que com o passar dos anos acaba monocromática. O jardim da casa do Laranjal era tão lindo, meu pai plantava flores de todas as cores, tinha até a rosa príncipe negro, rara vinho, amor perfeito, pala, copo de leite, boca de leão, dália, e muitas mais.  Teu pátio sempre foi colorido, assim lembro dele, cores fortes de grama, flores, frutas, tijolinho aparente, quente aconchegante, agora aos poucos está perdendo a cor, as folhas secas cobrem o chão, tudo o mais está lá, tu não estás, davas vida, cor, luz.  A vida me tirou tantas cores, porque tu também?!  Cláudia sinto muito, sinto tanto que isso tenha acontecido, quero tanto voltar na tua casa, saber que estás lá, ocupando o teu lugar, aquecendo o nosso coração, trazendo os matizes de volta de onde nunca deveriam ter saído. Quem se acha no direito de apagar as nossas cores?! Quem está pintando nossa vida de cinza?!  Quero outra data marcada no meu calendário, quero comemorar o dia da cor, o dia que voltares, não haverá mais saudade, vou plantar mais flores no teu jardim.

Oração

Cláudia

Senhor estou vindo aqui hoje em oração te pedindo compreender tudo o que não estou conseguindo. Tenho me sentido pequena, sempre tive fé, não sou de esmorecer diante da dificuldade, agora vejo que preciso de força, porque não entendi os seus desígnios,  o que faço diante do debochado, me ensina a não esmorecer com o escárnio, me conduz e fortifica diante da maledicência, me dá sapiência na ignorância, me ajuda a ser humana na insensatez, me ensina a fazer a tua vontade, porque não estou conseguindo. Os dias tem sido duros, estamos sofrendo com a ausência da Cláudia, poucos somos em união de sentimentos, hoje me senti David frente a Golias,  estava triste com a difamação de minha amiga, Tu bens o sabes, consegui desabafar, acompanhei uma amiga também isolada na injúria, tento ser digna de minha amizade, sou grata por teres me dado amigos tão leais, quero ao menos dar minha reciprocidade, mas confesso não compreender onde meus semelhantes buscam a verdade, todos nós que partilhamos o amor a Cláudia tentamos, porque as pedras?! Dias e dias de sofrimento, até quando mais? Porque ainda temos que conviver com o descaso, com o julgamento humano, com a dissimulação, com a leviandade, com o desamor?! Qual é a lição que ainda não foi aprendida?! Um dia a verdade virá a tona, estarei esperando com minha amizade, com minha inteireza, com o meu coração em paz, pois estou tranquila com os meus sentimentos, com a minha fé, não ousei acusar quem fez qualquer coisa, não apontei o meu dedo, sei que não é o meu papel. Deixo para os investigadores esse o que tiver de ser apurado Se não pude entender peço o teu perdão.  Que triste Senhor, estão brincando de Deus…

 Oração de São Francisco de Assis

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.

Onde houver ódio, que eu leve o amor;

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;

Onde houver discórdia, que eu leve a união;

Onde houver dúvida, que eu leve a fé;

Onde houver erro, que eu leve a verdade;

Onde houver desespero, que eu leve a esperança;

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;

Onde houver trevas, que eu leve a luz

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais

Consolar, que ser consolado;

compreender, que ser compreendido;

amar, que ser amado.

Pois é dando que se recebe,

é perdoando que se é perdoado,

e é morrendo que se vive para a vida eterna.

O real e o imaginário…

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Fui abordada por uma pessoa que me perguntou o porquê de eu não defender a honra da Cláudia, perguntei como assim, imediatamente respondeu, dizem que ela fugiu com um amante, o cara do retrato falado… Fiquei entre boquiaberta, espantada e bestificada… depois de sua mãe e de todos nós, os próximos que amam verdadeiramente a Cláudia, termos falado da felicidade que estava vivendo, pessoal e profissional, da correção de caráter, da honestidade, dos bons sentimentos, como podem distorcer isso, como podem dizer que ela fugiu com um amante?! Divulgamos sim o retrato falado, sempre achamos que ela foi subtraída de dentro de casa, e se fosse essa a pessoa que a levou?! O que é isso minha gente?! Não basta a Cláudia ter sumido de nosso convívio, realmente temos que enfrentar as hordas que misturam o real com o imaginário, uns por quererem ferver uma realidade grotesca, outros por serem levados por comentários maliciosos. São várias as pessoas da convivência da Cláudia que tentaram elaborar uma cronologia desde o início do seu desaparecimento, que se colocaram a disposição inclusive para serem investigados, que tentam esclarecer com informações pertinentes tudo o que sabem, que querem o desvendamento de toda essa tragédia, que a querem de volta…  Aqui existe sentimentos de hombridade, de humanidade, de união, dentro de uma doída realidade; mas parece que concorrendo com tudo isso por fora segue o imaginário, a distorção, o boato, o ouvi de alguém que… Por meses tentamos esclarecer, aquilo que pode ser esclarecido, porque não sabemos o que aconteceu depois do desaparecimento. Confiamos na pessoa da Cláudia, aquela da retidão de caráter com quem convivemos durante anos. Sentimos a preocupação e o afeto das pessoas que procuram dar o necessário conforto. E nos sentimos abandonados pelo destino, pelo descaso, pela distorção, pelo desvirtuamento. Imaginar o que pode ter acontecido é normal, tentar ajudar mais ainda, apontar sem provas, falar da Cláudia, que não pode sequer se defender, criar factoides, difamar, nossa, como dói… não aceito! Não, a Cláudia não saiu de casa mundo afora, não, a Cláudia não fugiu com um amante! Choramos pelo real, choramos pelo imaginário, ambos causam dor!

Apaixonada

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Apaixonada: por seus gatos, por seus cachorros, por seu trabalho, por suas pesquisas, por suas causas, pela justiça, por seus amigos, por seu filho, por seu marido, pela vida. Tremia de indignação por tudo que achava errado. Se amava amava com todas as forças, defendia, brigava, podias contar com ela sempre. Detestava fofoca, disse-me-disse e boataria… Conversa era olho-no-olho, frente-a-frente; aperto de mão bem dado, para não restar dúvida da sinceridade. Não fugia da rinha. Sabia enfrentar uma boa briga por si, pelos seus. Fica muito difícil seguir sem a sua presença, sem as nossas conversas, sem nada… Tem dias que eu apenas entro em submersão, os três últimos, fico pensando em tudo, em toda a vida, a minha, a dela, a nossa… Em todo o pensar há uma ação efetiva, muitas, mas que dizem respeito apenas a Cláudia, tudo para poder encontrá-la, como ela também sou boa de briga, Deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá … é assim que resolvi encarar, levar adiante, sobreviver, o nosso ajuste de contas só interessa a nós duas, alguns ajustes serão com a justiça, outros com Deus… “Ninguém pode dar aquilo que não possui. Para dar amor, você deve ter o amor.” (Leo Buscaglia) ele e seus ensinamentos, sempre constantes em minha mente, porque sim, nos amamos muito e sofremos com a tua falta, muitas agressões gratuitas que temos sofrido, não são nada comparadas ao teu desaparecimento, por isso tornaram-se nada. Escolhi o post da Clarice para hoje, estava no teu Facebook, um grande aprendizado a ser colocado em prática todos os dias, o do amor, ser verdadeira, sincera, desejar o bem, és assim, como a definição dela que escolhestes, perfeita. Penso na pobreza de sentimentos de quem cometeu essa violência contigo Cláudia, não é um ser humano, é uma criatura, falta-lhe aquilo que tinhas em abundância, vida, amor, paixão, falta tanto que precisou, em um ato de covardia, te subtrair para se fortalecer, pobre alma atormentada, digna de pena, pois será um apenado, que Deus lhe tenha misericórdia.

“Os fracos é que são cruéis. Só se pode esperar a brandura dos fortes.”  (Leo Buscaglia)

Cláudia Hartleben
16 de junho de 2012  – Facebook
Não importa:
que a ventania da incompreensão nos zurza o caminho;
que a ignorância nos apedreje;
que a injúria nos aponte ao descrédito;
que a maledicência nos receba a jarros de lama;
que a intriga nos envolva em sombra;
que a perseguição nos golpeie;
que a crítica arme inquisições para condenar-nos;
que os obstáculos se multipliquem, complicando-nos a jornada;
que a mudança de outrem nos relegue ao abandono;
ou que as trevas conspirem incessantemente, no objetivo de perder-nos.
Importa nos agasalhemos na paciência;
que nos apliquemos à desculpa incondicional;
que nos resguardemos na humildade, observando que só temos e conseguimos aquilo que a Divina Providência nos empreste ou nos permita realizar;
que nos cabe responder ao mal com o bem, sejam como sejam as circunstâncias;
e que devemos aceitar a verdade de que cada coração permanece no lugar em que se coloca e que, por isso mesmo, devemos, acima de tudo, conservar a consciência tranquila, trabalhar sempre e abençoar a todos, procurando reconhecer que todos somos de Deus e todos estamos em Deus, cujas leis nos julgarão a todos, amanhã e sempre, segundo as nossas próprias obras.
Emmanuel In: ‘Coragem’ – Francisco Cândido Xavier