Novela


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De repente eu me vejo dentro de uma novela cheia de tramas e lembro que certa vez a escritora Glória Perez foi perguntada de onde tirava as suas idéias para escrever suas novelas consideradas exageradas e ela respondeu, da vida real, tudo o que escrevo é baseado em histórias que ouvi, ela mesma passou por uma inacreditável tragédia pessoal logo depois dessa declaração. O desaparecimento da Cláudia é surreal, sim, inexplicável, não há pior sentimento do que o de impotência. Quem perpetrou o fez ardilosamente, no meio da noite deixando a todos nós perplexos, atônitos. A falta de qualquer tipo de informação que pudesse esclarecer o que de fato aconteceu deixou uma grande janela aberta, não estou falando aqui da investigação policial ou do Ministério Público, estou falando daquela noite, do sumiço, a incógnita. Esse vasto ponto de interrogação trouxe consigo as teorias, as mais diversas, inusitadas, surpreendentes. A cidade toda comenta, discorre, entrefala e em meio a esse burburinho existem palavras que confortam e palavras que ferem. Ao transformar o desaparecimento da Cláudia em uma novela se abstraiu o ser humano, se tornou um folhetim, e folhetim se comenta abertamente, sem pudor ou restrição. Muitas coisas me ocorrem ao perceber e tentar analisar os comentários, uma delas me choca, a frieza das palavras. Ao alienarem o humano o controle deixou de existir, percebo o brinquedo de detetive, desenham-se cenários, possibilidades, motivos, e o envolvimento das pessoas. Pessoas com as quais a Cláudia convivia e as quais amava, é doído ler, ver essa exposição, tentar entender o porquê da escolha dos personagens para os diversos roteiros de novela. A falta de qualquer tipo de informação predispõem as pessoas a esse jogo. Mas existe um excesso de palavras que beiram o desrespeito. A amplidão de enredos embarca qualquer uma das pessoas que conviveram com a Cláudia, então, caso um dia soubermos o que aconteceu de verdade, alguém irá gritar, viu, eu acertei!  Vários foram os apontados, sem qualquer prova. Quem dá o direito as pessoas de serem injustas?! Ninguém, ninguém sabe o que ocorreu. Nessa novela grotesca vejo estórias (não escrevi errado, invenção só pode ser tratada assim) surgindo como verdades absolutas, servindo de alicerce para raciocínios que induzem ao erro e me pergunto se é intencional. Porque qual é a lógica de se construir uma teoria em bases falsas?! Qual é a intenção?! Mas a pior parte é quando a vítima começa a ser julgada, quem sofreu a violência foi a Cláudia, não há nenhuma razão para se teorizar em cima dessa violência com o demérito da sua pessoa, que sempre se pautou pelo que era certo, que procurou a vida toda seguir o caminho correto, que deu provas de sua generosidade. Será que ao desmerecer essa pessoa que me é tão valiosa, vítima de um ato de violência ímpar, já estão construindo as bases de uma futura defesa?!

2 pensamentos sobre “Novela

  1. Não tem como não ficar triste diante das tuas palavras e da tua dor exposta em cada frase! Sofrimento e questionamento por tanta injustiça! Nós também nos perguntamos: O que será que tem por trás de tanta maldade? O que há que ainda não está a olhos vistos? Continuamos firmes com todo nossa solidariedade por vcs todos! Há um lamento por parte daqueles que respeitam a dor alheia! Deus abençoe toda família!

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