Feliz aniversário Cláudia!


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Esse texto não é meu, é da Lisa Siqueira, que, apesar de ter conhecido a Cláudia pelas redes sociais de uma forma distorcida, procurou saber quem ela realmente é e como é a sua vida. Sem saber que era o aniversário da Cláudia, essa madrugada ela precisou escrever sobre ela, um texto forte, inspirado numa performance de alunos da Universidade onde a Cláudia é professora.

“O GRUPO AUTO ORGANIZADO DE MULHERES DA UFPEL, O CASO CLÁUDIA HARTLEBEN E A REAÇÃO DAS PESSOAS.

A performance nua e crua do “Grupo auto organizado de mulheres da Ufpel” e a reação das pessoas que presenciaram os atos, fez-me pensar em um caso que diz respeito a todas as mulheres, a todos os homens e também à própria Universidade Federal de Pelotas.
Há quase 7 meses a professora Cláudia Hartleben, coordenadora do curso de Biotecnologia da Ufpel, desapareceu misteriosamente. Cláudia foi retirada do convívio da família, dos amigos, dos colegas e dos alunos. Ela estava vivendo um momento muito feliz na carreira, pois, após anos de estudos e pesquisas, finalmente teve seus esforços reconhecidos, sendo homenageada por seus alunos, tendo um importante artigo aceito para publicação e conquistado resultados muito positivos em sua pesquisa sobre uma vacina contra a leptospirose. Cláudia também estava muito feliz em sua vida pessoal. Apesar do difícil casamento anterior, refez-se e tinha um bom relacionamento com o atual companheiro. Mas, naquele fatídico 09 de abril, sumiu como que por encanto. A polícia ainda não apresentou elementos que possibilitem o indiciamento de um culpado, mas, já garante que se trata de um homicídio e o ex-marido de Cláudia figura como um dos principais suspeitos.
No próximo dia 04/11, João Morato Fernandes comparecerá a uma audiência para responder à denúncia de agressão registrada pela Cláudia, contra ele, em 2013. A agressão ocorreu dentro dos limites físicos da Ufpel, quando o ex-marido teria se aproximado dela e passado as mãos em seus seios e suas nádegas, dizendo-lhe, diante da reação negativa dela: “antigamente você gostava”. Apesar da humilhação, da vergonha e da dor emocional a que foi submetida, Cláudia não queria registrar a queixa, mas, acabou cedendo aos apelos de um colega que presenciou a cena lamentável. Uma amiga muito próxima da Cláudia me confidenciou que ela teve motivos, pelo menos mais quatro vezes, de registrar agressões sofridas pelo ex- companheiro, mas, não o fez, com medo de magoar o filho, fruto desse casamento falido. Contra ele há outro registro de agressão cometido em 2001 a uma cunhada, casada com seu irmão. Também há o relato de agressão a uma tia da Cláudia, à época com 70 anos de idade. Mas, o que o teatro escancarado do grupo da Ufpel tem a ver com o caso Cláudia Hartleben, além de denunciar a violência? A reação das pessoas que o assistiram é muito semelhante à reação de algumas pessoas diante da tragédia vivida por Cláudia em seu passado e que pode ter culminado com sua morte.
Em uma página criada supostamente para exigir justiça por Cláudia, li algumas manifestações de mulheres, isto mesmo, MULHERES, afirmando que o ex-marido não pode ser considerado culpado pela provável morte da Cláudia, apenas pelo “histórico do passado”. Outros comentários sugerem que “não houve agressão física, fora apenas um mau entendido”. E ainda há as que o acham “queridinho”. O fato dele ter agredido a Cláudia e, pelo menos outras duas mulheres, não comprova que ele é um assassino, mas, comprova que ele é um AGRESSOR e os agressores estão em todas as partes, ferindo mulheres inocentes, provocando-lhes dor física, emocional e moral. Os agressores podem ter um aspecto físico horripilante e também podem ser homens bem apresentáveis, muito bem vestidos e cheirando a perfume importado. Os agressores podem ser homens de intelecto limitadíssimo, incapazes de juntar poucas palavras e formar uma frase e também podem ser mestres e doutores. Os agressores podem morar em favelas e também podem morar em apartamentos bem localizados nos centros das cidades. Os agressores podem ser homens com quem nunca tenhamos cruzado em toda a vida e também podem ser homens a quem tenhamos jurado amor eterno, tido filhos e os homenageado em trabalhos acadêmicos. O agressor da Cláudia é um homem de boa aparência, muito inteligente, possui título acadêmico, mora em um apartamento bem localizado, é rico e ainda assim é um AGRESSOR! Ele pode não ser um assassino, mas, ainda assim é um AGRESSOR! Ele é o pai do filho que a Cláudia tentou proteger por anos, mas, ainda assim é um AGRESSOR! Ele pode “apenas” ter passado a mão na Cláudia, mas, ainda assim é um AGRESSOR! Ele pode parecer “queridinho” para algumas mulheres, mas, ainda assim é um AGRESSOR! A Cláudia não vai estar na audiência do dia 04 para contar sua história e se defender, porque um AGRESSOR tirou dela esta e tantas outras oportunidades, mas, o ex-marido, o motivador desta audiência vai estar lá e ele é um AGRESSOR!
Infelizmente, servidores e alunos da Ufpel se escandalizaram com a performance das mulheres que denunciavam os abusos físicos e psicológicos sofridos por outras tantas mulheres no mundo, no país, no estado, na cidade de Pelotas, na própria universidade. Infelizmente, mulheres minimizam as agressões sofridas pela Cláudia, distorcendo os fatos, tentando idealizar um homem que não existe, sabe-se lá com que finalidade. O fato é que a violência contra as mulheres, em todas as suas formas precisa acabar. Há que se desnaturalizar o naturalizado, o tido como normal, como aceitável. O escândalo é a agressão, o ato criminoso, covarde e desumano que violenta, humilha, destrói e muitas vezes mata. A MULHER É A VÍTIMA E A CULPA NÃO É DELA!
Distorcer, colocar “panos quentes”, abafar, minimizar, naturalizar a violência contra a mulher é agredi-la duplamente. A Cláudia foi agredida e sua voz já não pode mais se levantar contra o seu agressor. Porém, a minha voz e a tua voz, ainda podem ser ouvidas. Não nos calemos, pelo menos, não nós mulheres, diante de tamanha covardia e por quem já não está mais aqui para se defender.
EU, MULHER, RESPEITO-ME E POR ISTO, TAMBÉM RESPEITO A MULHER CLÁUDIA.”

10 pensamentos sobre “Feliz aniversário Cláudia!

  1. Realmente eu não sabia que hoje é aniversário da Cláudia, mas senti muita vontade de escrever algo sobre ela e para ela. Triste demais a Cláudia não poder estar presente no dia da audiência para contar sobre as agressões que sofria. Triste demais ela ter a vida interrompida de forma tão cruel e não poder se defender. Por isto, nós que podemos defendê-la temos a obrigação de fazê-lo. Não podemos mais tratar a violência contra as mulheres como algo que não é conosco ou acontece em maior ou menor importância, dependendo de quem é o agressor. Agressor é agressor e violência é crime! Todas somos vítimas em potencial e é inaceitável que mulheres tentem minimizar atos violentos cometidos contra suas iguais.

    • Parabéns, emocionante e verdadeiras tuas palavras. O mundo precisa de muitas LISA’s para, através do “dom” da escrita descrever com enorme lucidez tais acontecimentos.
      Muito obrigado.

  2. Concordo com praticamente tudo que foi escrito, concordo com a necessidade de manifestação diante das agressões sofridas pelas mulheres, manifesto isso no meu dia-dia e ainda assim tomei um banho de urina quando passei pelo ICH e tive de ouvir desaforos como tu és estuprador, opressor de mulheres, apenas, acredito, por ter passado com roupas de trabalho, camisa, calça, enfim. Preconceitos são conceitos pre estabelecidos segundo alguns padrões. Independente de lado, sofri preconceito de gente que não sabe o quanto apoio este tipo de manifestação. Acho, sinceramente que a manifestação passou do ponto, começou de uma forma pacífica e após a cachaça e a maconha que estavam rolando se tornou algo exagerado, agressivo. A inversão da violência não serve a ninguém, assim como a generalização das agressões. Todo apoio às políticas de gênero, às feministas, tão importantes na batalha pela igualdade, mas deixo aqui um relato de um apoiador que foi agredido simplesmente por ser homem.

    • Olá Rafael, obrigada pelo teu comentário. Essa manifestação serviu de inspiração para escrever sobre a Cláudia Hartleben, professora da Universidade que está desaparecida e sofreu violência doméstica. Hoje, dia do aniversário dela, não temos o que comemorar, apenas esperar… por ela, por justiça, pelo sonho de um mundo sem violência…
      Um abraço

    • Ainda falam que nós mulheres somos responsaveis por tais agressões, não nós somos responsaveis por confiar e acreditar muitas vezes no agressor e sim não podemos nos calar somos Mulheres e temos direito de ser respeitadas. Não podemos deixar que nossas vidas sejam interrompida como a da Claudia temos sim que nos manisfestar. Sou Mulher e digo não, não a você agressor. Feliz Aniversário Claudia.

  3. Infelizmente, assim como a Claudia, muitas mulheres omitem as agressões pensando proteger os filhos mas na verdade isso somente as torna mais vulnerável. Quem sabe se tivesse agido com mais rigor contra essa violência, não estaria hoje junto a seu filho? Não a violência contra as mulheres, justiça para a Claudia.

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