Delito Menor – por Lisa Siqueira


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CONTINUANDO…
Sobre a postagem do Dr. Sanguinetti, publicada em sua página no dia 29/10 e compartilhada na página Desaparecida Cláudia Hartleben na mesma data, onde o perito diz: “O julgamento de um delito menor, onde a vítima, posteriormente, sofreu delito maior”. Através dos familiares fiquei sabendo como foi esse “delito menor” sugerido pelo perito. Cláudia estava nas dependências da Ufpel, na companhia de um colega de trabalho, o ex-marido se aproximou dela, passou as mãos em suas nádegas e seios e ela o empurrou. Diante da reação negativa de Cláudia, ele disse a ela: “Antigamente você gostava!”.
Há um boletim de ocorrência registrado pela cunhada do ex-marido de Cláudia, em 2001, de agressão física. Testemunhas afirmam que no mesmo dia em que o ex-marido atentou contra a Cláudia, em 2009, ele agrediu fisicamente a tia dela, então com 70 anos de idade, quando esta tentava defendê-la em uma discussão ocorrida na residência da professora. D. Zilá disse em entrevista que a Cláudia sempre mencionava o medo que sentia do ex-marido e afirmava que se alguma coisa lhe acontecesse, seria pelas mãos dele. A comadre da Cláudia, também sua ex-cunhada e amiga de muitos anos, especificamente desde que Cláudia tinha 17 anos, revelou que ela contou sobre mais quatro agressões sofridas. No entanto, apesar da insistência da Adriana, Cláudia não registrou as ocorrências para não magoar o filho, que é muito ligado ao pai. Com certeza, há um histórico bem importante de violência.
No entanto, infelizmente, Cláudia não fez os outros registros que comprovassem as agressões e, também, infelizmente, não estará na audiência de instrução marcada para hoje, 04/11. Se não lhe tivesse sido roubado o direito de estar presente, ela poderia relatar em detalhes todas as agressões sofridas. Também poderia dizer ao réu, seu advogado e ao MP e, posteriormente ao Dr. Sanguinetti, como se sentiu quando teve sua moral e seu corpo atacados naquele dia, em 2013, e em outras ocasiões. Mas, a Cláudia não vai poder fazer isto, então, faço eu:
Senhores homens que estarão presentes na audiência e também esse senhor que se refere ao “delito menor”, o meu corpo é somente MEU. Nele só tocam as pessoas que eu permito tocar. O que meu marido e eu fazemos dentro da nossa casa pertence somente a nós e, se nos separarmos, ele não terá o direito de se aproveitar de nossos momentos de intimidade, expondo as coisas que gostamos de fazer enquanto estamos casados. Nem agora que estamos juntos eu lhe dou esse direito, muito menos se nos separarmos. Eu não sou gado, nem terra, nem casa, nem carro ou outro bem móvel ou imóvel que possa ser comprado com dinheiro e do qual ele se torne proprietário. Nem a posse sobre mim ele tem. O meu corpo é MEU e eu sou MINHA, somente. A ele eu dou o direito de me amar e de conviver comigo. Dele e de todos os homens no mundo eu exijo respeito e consideração, AGORA e SEMPRE! Se qualquer homem na face da terra ousar atentar contra o MEU CORPO ou a MINHA MORAL, ele estará me ferindo de morte, humilhando-me, constrangendo-me e magoando-me profundamente. Parece um tanto exagerado? Sim! Para quem nunca passou pela situação constrangedora de ter que se desculpar por ser mulher e “provocar” reações irracionais nos homens, parece exagero. Mas, nós mulheres passamos por isso todos os dias. Nosso cotidiano é feito, também, de situações vexatórias que nos humilham e nos fazem sofrer. Somos tocadas por mãos indesejadas; somos assediadas com baixarias; somos agredidas com palavras que muitas vezes ferem mais que tapas e socos; apanhamos; somos condicionadas pela sociedade a aceitarmos caladas tudo que nos agride em nome de “preservarmos” a nossa imagem, de “protegermos” os nossos filhos, de não colocarmos familiares, amigos e colegas em situações “vergonhosas”, como se fossemos culpadas pelas atitudes insanas cometidas contra nós.
Não, Dr. Sanguinetti! O que aconteceu com a Cláudia não foi um “delito menor”! Eu não estava lá, mas eu tenho certeza que a Cláudia sentiu um tremendo embrulho no estômago, as suas pernas perderam as forças, o seu corpo tremeu inteiro, as suas mãos suaram, a sua pele queimou, ela teve vontade de vomitar, sentiu como se fosse cair dentro de um buraco enorme que se abriu sob seus pés. Olhou envergonhada para todos os lados, olhou para seu colega, sentindo-se a pior das mulheres. Perguntou-se, “como eu posso ter um dia gostado que um ser desprezível como este tocasse em mim?”. Cláudia se sentiu ferida de morte quando foi ultrajada daquela forma, humilhada dentro do seu ambiente de trabalho. Ela, uma professora admirada por todos seus alunos, uma doutora pesquisadora respeitada no meio acadêmico, a mãe do único filho daquele homem. Com certeza, não foi a um histórico de amor e respeito que esse homem arremeteu naquele dia e, sim, a um histórico de violência, de brutalidade, de desprezo. Não é por amor que os homens batem nas mulheres e as ofendem, é por ódio, por inveja, por ciúmes doentio, por sentimento de perda, uma perda que não existe, porque a mulher não é sua propriedade. Não se pode perder o que nunca lhe pertenceu.
Senhores, a Cláudia não estará aí para lhes dizer tudo isso. Mas, eu estou! Digo-lhes que não há nada no mundo que minimize o que ela sofreu e sentiu. Até porque não houve, por parte do seu agressor, qualquer manifestação de arrependimento e, mesmo que houvesse, não diminuiria o fato ocorrido e a sensação vivida em relação a ele. Senhoras que curtiram a postagem do Dr. Sanguinetti sobre o “delito menor”, queira Deus que as senhoras nunca passem por uma situação dessas, mas, se vierem a passar, também queira Deus que estejam vivas e que possam estar presentes no dia de suas defesas, porque a Cláudia não estará no dia da defesa dela…
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NÃO É DELITO MENOR!

5 pensamentos sobre “Delito Menor – por Lisa Siqueira

  1. Há tempos venho acompanhando o blog, desde o ocorrido com a Professora, também sou estudante da UFPel e isso nos deixou em choque, ainda mais depois de ter conhecimento sobre alguns aspectos de sua vida.
    Eu acompanhava a página, e como muitos lá, acreditava no Sanguinetti, achava que a família estava negligente e etc, mas depois de um tempo, percebi que eu não conhecia a Cláudia, tampouco os familiares e amigos, quem sou eu para dizer quem está negligente ou não? Eu não sei o dia a dia de ninguém, e hoje entendo perfeitamente a necessidade do sigilo do caso, e tenho certeza que vai se resolver, e justiça será feita.
    Ainda faço parte da página, mas hoje para não deixar que outras pessoas se deixem levar por gente oportunista e mau caráter, que ao invés de ajudar, só quer inventar história e se meter onde não foi chamado, sem contar nos absurdos que lá são postados, e chamar de agressão contra mulher como “delito menor”, isso é inaceitável.

    Força Adriana, e um beijo.

    • Lisa Siqueira, quando o Dr. Sanguinetti fala em “delito menor” ele esta usando termo jurídico, infelizmente esse delito é assim tradado no nosso ordenamento jurídico. É considerada infração de menor potencial ofensivo, é um conceito jurídico concebido para designar os crimes de menor relevância, temos que mudar os conceitos, as concepções, culpar os operadores de direito por usar os termos “adequados” segundo a lei vigente não é o caso.

      • Essa tem sido a nossa campanha Taciana, fizemos 24h de luta por isso ontem. Quanto ao Senhor Sanghinetti, ele sabe muito bem quais são suas reais intenções, certamente não são as de defender a Cláudia ou lutar para que esse delito seja reconhecido como de maior gravidade…

      • Sim, Taciana, entendo a tua colocação. Sei que os termos precisam ser mudados ou continuarão sendo usados para justificar agressões “mais brandas” ou “mais pesadas” e, assim, livrar os agressores. Neste caso, como se pode constatar em outros textos do Dr. Sanguinetti, pode-se perceber que a intenção é a de minimizar o histórico agressivo do ex-marido, tentando transformá-lo quase em vítima da sua situação.

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